Olá você, acabo de terminar um dos filmes mais emocionantes da minha vida (The Good Lie), ele retrata toda a trajetória de uma família de crianças sobreviventes do Sudão que sofre muito antes que consiga sua felicidade. Realmente recomendo o filme, e pensando nele que, em desespero silencioso, começo nosso centésimo post aqui no EAE. Como todos sabem, o dia de hoje sedia a data que comemora o símbolo da mulher que te viu nascer, crescer, beijar, chorar, rir, dançar, cantar, correr, sofrer, viver... A mulher mais importante da sua vida está fazendo "aniversário de mãe". E não se poderia deixar passar em branco, portanto é em clima de drama africano que damos início aos trabalhos.
Raiz da Vida
Quando eu soube que você estava chegando entrei em desespero. Eram tempos difíceis e eu mal conseguia me alimentar, como conseguiria te sustentar? Tentei me livrar de você por diversas vezes, quase cometi suicídio.
Mas sabe, algo sempre me prendeu a você, eu nunca soube explicar... Vagando pelos vilarejos semi-abandonados agora devido às crescentes guerras, consegui transporte até uma vila onde fiquei sabendo que havia uma reserva de refugiados próxima a Nairóbi, lá eles te providenciariam roupas, comida e um lugar para dormir. Me pareceu um sonho distante que se tornara realidade, finalmente um lugar onde eu não mais precisaria fugir.
Então parti em viagem com o pequeno grupo que decidiu tentar a sorte e ir para lá também, tínhamos poucos recursos, então nos primeiros 500 quilômetros perdemos cinco membros por desidratação. A comida logo logo acabaria e só tínhamos mais sete pessoas além de mim em viagem. O tempo foi passando e essa maldita barriga foi inchando. No que estava pensando quando te concebi? Além de tudo isso, as áreas em que o deserto tocava nossa rota eram cruéis, muito quentes durante o dia e congelantes durante a noite. Isso quando não nos escondíamos das tropas do exército que buscavam por refugiados, que no caso éramos nós.
Certo dia fomos surpreendidos por um grupo de três leões que pareciam famintos e fariam de tudo para ter o que comer, foi uma luta horrível, dois dos nossos três homens morreram em batalha, e um ficou gravemente ferido. Um dos leões pulou em cima de mim durante o confronto, e eu estava pronta para me despedir da vida, mas quando olhei para baixo e vi a barriga enorme me desesperei por completo, e às lágrimas peguei a primeira coisa pesada que toquei e acertei o leão com ela, por sorte era uma pedra, desnorteei-o com o primeiro golpe e o matei com os sucessores. Ashanti, uma moça alta e simpática que era a que mais conversava comigo veio ver se estava tudo bem, ela disse que quando me viu matar o leão, parecia um rinoceronte descontrolado, que destruiria o que quer que estivesse em seu caminho. Tivemos carne de leão aquela noite, comemos crua pois não haviam gravetos ou pedra para iniciar fogo.
Beirando os 3000 quilômetros minha barriga já estava em seus sete meses, tínhamos que andar mais devagar e pausadamente pois eu não podia me esforçar muito. Habere, o último homem do nosso grupo, disse que eu os estava atrasando demais e que seríamos pegos se não nos apressássemos, então declarou que iria na frente, duas das outras três moças que me acompanhavam o seguiram com olhar de pesar e sem se despedir. Ashanti ficou comigo, nunca fiquei tão feliz na vida, assim pelo menos não morreria sozinha. Dois dias depois atravessando um trecho de rio que cortava nosso caminho, encontramos três corpos descendo o leito, meu sangue quase congelou quando os vi.
Dormimos na Savana naquela noite, Ashanti disse que ia dar uma volta e pegar algumas frutas, adormeci antes que ela voltasse. Durante a manhã não a vi, esperei uma hora e ela ainda não havia voltado, decidi seguir viagem, me arrependi amargamente. O que encontrei foi um cadáver que lembrava vagamente Ashanti desmembrado e com marcas de estupro. Me ajoelhei vertendo lágrimas dos olhos e lamentando não ter podido lhe devolver tudo o que fizera por mim. Então, depois de esconder as partes de seu corpo dos abutres, continuei viagem, sei que era isso que ela iria querer que eu fizesse. Foi o mês mais difícil de todos, eu não tinha forças para correr e caçar carne, então sobrevivi de frutos e insetos que consegui encontrar, tive de beber minha própria urina diversas vezes.
Finalmente cheguei na fronteira de Nairóbi, fui encontrada por locais vagando ao Sol. Fui levada imediatamente ao hospital comunitário, eu estaria entrando em trabalho de parto logo, foi realmente muita sorte.
Acordei num leito de hospital horrorizada, vi que a barriga estava bem menor e abafei um grito, olhando para a direita encontrei um ser minúsculo, que prematuramente respirava e se movia enquanto calmamente sonhava. Milhares de lágrimas brotaram dos meus olhos e não pude conter um sorriso de dentes tortos e maltratados. Então percebi que atravessaria todos os desertos, mataria centenas de exércitos de leões e comeria quantos insetos fossem necessários para que esse momento pudesse ser eterno.
E você, minha pequena, foi batizada como Mzizi wa Maisha, que significa "Raíz da Vida" no nosso idioma. Afinal, não só se enraizou no meu coração vazio como me fez lutar pela vida, a minha... E a sua.
Autora Anônima
Um certo alguém me disse uma vez que nós tendemos a nos enraizar na vida e que isso era ruim, mas sabe... Acho que nem sempre é ruim, não é mesmo? Um feliz dia das mães, espero que seja tão significativo quanto o da Maisha. Até a próxima.
M