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24 junho 2016

Sonhos de Guerra #04 (Ou: O Vale das Almas Perdidas Parte 1)

Senhoras e senhores, moças e rapazes, meninos e meninas. Sonhos de guerra volta hoje com um de  seus primeiros trechos "baseado em fatos reais". 

Inspirado na batalha de Ia Drang, que ocorreu em 1965 e que já foi retratada parcialmente no filme We Were Soldiers (Fomos Heróis na versão BR), estralado por Mel Gibson inclusive e é um filme bem baseado históricamente falando. Foi a primeira grande batalha de campo entre as forças armadas dos EUA e as tropas da FNL. Aqui apenas me inspirei nesse episódio para criar um grande conflito de campo, porém com os elementos semelhantes ao que ocorreram de verdade.

Boa leitura!
Magno

Dia 86 – 02/11/1967
Hoje o Sargento Jack separou uma companhia (um grupo de cem soldados) do batalhão para uma ofensiva em conjunto com a 5th e a 7th Cavalaria. Obviamente eu e o Rick fomos selecionados, apesar de fazer pouco mais de um mês que estamos aqui, nós somos alguns dos poucos que sobreviveram. Segundo o que nos foi passado na “sala de reuniões” que não passava de uma tenda entre algumas árvores, vai ser uma missão de tomada de pontos estratégicos. Pelo visto a inteligência do exército descobriu um caminho que segue por dentro do Laos e do Camboja e seria por onde as tropas do Vietnã do Norte estariam contrabandeando armas e suprimentos para a FNL.

Dia 87 – 03/11/1967 [05:36]
Nunca vi uma mobilização militar tão grande, estamos nos aproximando da região de Plei Me, embora a emboscada que está sendo armada seja mais a noroeste. É uma região serrana com uma floresta muito fechada e uma grande montanha, e a ideia é que após essa operação seja montada uma pequena base no topo dessa montanha para um melhor controle da região. Estamos sendo auxiliadas pela 1st Divisão da Cavalaria Aérea (chamada de Airmobile) e pela 11th Divisão de Assalto Aéreo, além da 5th e da 7th Cavalaria.

Dia 87 – 03/11/1967 [17:13]
Vim pendurado na porta de um UH-1Huey, basicamente o helicóptero mais visto por aqui, alguns pilotos até pintam dentes na sua dianteira, pois são muito eficazes em assaltos a alvos terrestres, (porém, um alvo fácil para os caças) tentando passar a ideia que são “tubarões dos ares”... Egos exaltados demais para meu gosto e estou com uma puta mau pressentimento dessa operação. Vou me preparar que logo os portões do inferno serão abertos.

Dia 88 – 04/11/1967 [16:44]
Curioso como pode acontecer tanta merda em menos de 24 horas. Nós pousamos aproximadamente as 10:48, o bombardeio já tinha sido iniciado. Seguindo ordens do Capitão John Herren nós seguimos pelo vale até uma companhia capturar um soldado da FNL vagando pela mata. Após um pouco de carinho com um alicate, ele revelou que havia cerca de mil e seiscentos soldados do outro lado do vale enquanto o nosso contingente em terra até aquele momento era de no máximo duzentos homens. Demorou, mas até o meio dia reforços pousaram e nos preparamos para a ofensiva. Começou quando uma patrulha se encontrou com alguns batalhões inimigos e daí em diante só dava para escutar gritos, tiros e explosões. Embora eu já estivesse acostumado, o cheiro de pólvora somado ao calor e aquele ambiente onde você não conseguia distinguir seu inimigo de uma samambaia, estava me deixando maluco. A pressão dos tiros resvalando ao meu redor só cessou cerca de meia hora depois quando o Capitão Bob chegou ao flanco sul da montanha e chamou suporte aéreo. As bombas findaram a vida de cerca de 150 vietnamitas em 10 minutos. Quando parou, a floresta parecia uma horrível versão sangrenta de um pântano, só que ao invés de águas barrentas nós tínhamos sangue misturado a restos de corpos, alguns deles de nossos soldados que estavam próximos demais da área do bombardeio e não conseguiram fugir. Agora estamos em uma espécie de trincheira cavada fora da área da floresta, o vale antes cheio de vida, agora parece uma cachoeira de sangue.

Dia 88 – 04/11/1967 [19:32]
Os bombardeios cessaram, montamos um esquema de vigília para que amanhã possamos continuar lutando. Estamos no flanco norte da montanha e escutamos a todo o momento sons de metralhadoras vindo do lado sul. Pelo visto a noite vai ser longa para muitos de nós.






10 junho 2016

Sonhos de Guerra #03 (Ou : Como perder uma opinião em um mês)


Senhoras e Senhores, moças e rapazes, qualquer um com a capacidade de ler (ou escutar), lhes trago o terceiro episódio de Sonhos de guerra, a saga do soldado sem nome.

Junto disso também venho trazer a notícia. A História de Eustáquio, escrita pelo Sr. M e pelo Sr. J está vindo para a sua segunda temporada. Em breve, mais uma saga para você continuar a ler. Para quem não conhece, visita ali nos marcadores. É uma história cheia de mistérios, alienígenas e... coisas que não fazem muito sentido (ainda).


Até semana que vem!
Magno


Dia 70 – 17/10/1967
Escrevo agora de um hospital de campanha nas proximidades de Buôn, como eu imaginei, fomos novamente atacados, novamente massacrados e novamente fui ferido, um morteiro explodiu ao lado do M-113, que tombou, eu bati a cabeça e apaguei. O Sargento disse que Rick me carregou por alguns metros, até que outro morteiro explodiu nos arremessando para longe. Eu estou com a cabeça enfaixada, mas segundo a médica Laurie, Rick aparenta ter fraturado um osso da perna e quebrado algumas costelas (maldito, devia ter me deixado lá, agora está aí, todo ferrado). Pelo menos tenho conversado com a médica Laurie, ela é inglesa, pele clara e cabelos castanhos. A primeira pessoa que vejo em dias que não está coberta de cinzas e suor. Jack mandou todos os soldados da companhia manterem distância das enfermeiras, estupros se tornaram constantes por aqui desde o começo dos conflitos.

Dia 72 – 19/10/1967
Ainda estou em choque com o que vi hoje. A patrulha de rotina das proximidades do hospital de campanha, uns soldados do 1st Batalhão de Fuzileiros, encontrou uma trincheira, que se tornou um buraco, que se tornou um túnel, que desembocou a quatro milhas daqui. Jack foi ordenado a comandar uma tropa de reconhecimento, exploramos o túnel e no final encontramos outros três túneis. Já ouvi relatos desses túneis, a FNL usa para transporte de suprimento e tropas. E pelo visto Jack também conhecia e estava pronto para lidar com isso. Foi quando puxaram os Lança-chamas... O cheiro do Napalm é estonteante, mas pior foi quando atingiu o corpo dos soldados vietcongues. O aroma de morte no ar pesava toneladas na minha respiração, perdi os sentidos por alguns minutos, até que uma das cenas mais brutais aconteceu diante de meus olhos. Crianças saíram correndo de um bunker em chamas desesperadas, e para terminar, um soldado raso do 1st batalhão “terminou o negócio”. Jack ficou puto e começou a gritar com o soldado, aí o levou para a floresta, um pouco depois só escutamos um disparo, quando o Sargento retornou ninguém disse uma palavra.

Dia 73 – 20/10/1967
Rick acordou, está meio desnorteado pelo tempo que passou apagado, e perdeu uma parte da audição do ouvido esquerdo, devido à explosão. Como tudo aqui no Vietnã, comemoramos com vodka barata (que a médica Laurie não pode saber que bebemos). Tem aparecido uma quantia incrivelmente grande de fotógrafos por aqui, e depois de o que aconteceu ontem, começo achar bom, quem sabe eles possam mostrar que nesse campo de batalha há vilões em ambos os lados. (Quem estamos salvando?) Hoje vi Jack ajudando uma moça, ela procurava seu marido e seu filho, pelo que eu pude entender, ambos se alistaram na FNL e ela acredita que nós os matamos, quer que ao menos lhe entreguemos os corpos. É curiosa a forma que Jack se posiciona, parece que nasceu para a guerra, que vai fazer o que tem que ser feito. “O Soldado sem Sentimentos.” Não consigo parar de pensar nisso, que bela merda! Passar por uma guerra onde não se sabe qual dos dois lados é o pior, e não poder nem ao menos se despedir de sua família direito... Cada vez mais entendo o que minha mãe queria dizer.

Dia 78 – 25/10/1967
Hoje completei um mês de “estadia” nesse paraíso infernal, parece que estou aqui há séculos. Meu corpo já está todo marcado pela guerra, tanto fisicamente como psicologicamente, aqueles jovens de Healdsburg devem ter passado por coisas ainda piores para voltarem malucos (se bem que todos aqui são malucos, principalmente o Sargento Jack). Trocamos figurinhas ontem à noite, houve uma “festa” para os soldados do 2nd Regimento de Artilharia (pessoal da Pennsylvania e em sua maioria garotos que não queriam ficar plantando batatas com os pais). Jack é um texano excêntrico, gosta de whisky quente e botas de couro (como aqueles cowboys da televisão) e parece um sádico durante os conflitos, acho até que ele conta quantos “camponeses” mata.  Pelo que Jack me falou, o 2nd Regimento derrubou uma floresta a bombas, mas conseguiu matar um dos líderes da FNL. Fiquei pensando (o conhaque barato me ajudou a refletir). Qual o preço que pagamos para matar alguém que vá contra nossos ideais? E se ao invés de uma floresta fosse uma cidade? Eles teriam bombardeado mesmo assim? Quantos civis já morreram nesse “negócio” de influências? E para piorar, nós não paramos, não temos piedade, continuamos matando, explodindo e queimando tudo o que encontramos até não sobrar mais nada. E eu faço parte disso...

Dia 81 – 28/10/1967
Saímos de Buôn hoje e estamos em marcha em direção a Qui Nhon, no litoral. Caramba, não vejo o mar há meses, já parece uma eternidade, me sinto como alguém que viajou milhares de quilômetros apenas para chegar ao litoral e assistir as ondas quebrarem... Estou com medo de mais emboscadas, já estou todo surrado e cheio de cicatrizes. Não era com esse tipo de lembrança que eu esperava ir embora deste lugar (já estou me questionando se eu “conseguirei” ir embora deste lugar).

Dia 82 – 29/10/1967
Confesso que sinto falta de conversar com a Laurie, foi a primeira pessoa que tinha uma visão similar a minha em meio a este inferno (e que não me tratou como um cachorro também).
Nesses momentos você começa a pensar se voltará a ver alguém que conheceu aqui, sinceramente acho que estamos todos condenados ao inferno pelo o que temos feito, e um por um, esperamos em fila indiana a morte carimbar nosso bilhete no trem que ira nos levar de primeira classe com “assentos reservados”.

Dia 84 – 31/10/1967
Qui Nhon está uma merda... Achei que pelo menos a brisa do mar seria parecida com a da Califórnia... Doce engano, até aqui o cheio de morte é predominante no ambiente. Caramba, essa cidade é a capital de um estado e esta toda ferrada, me contaram que era uma das praias mais bonitas daqui antes da guerra. E agora você só vê soldados jogados na areia durante sua folga, esperando o momento em que suas companhias sejam enviadas para uma base diferente. Tem uns caras tentando surfar, mas o vento não é forte suficiente para isso então da só para escutar dezenas de palavrões vindo da direção deles. Outros ficam dando em cima das garotas locais, a maioria não dá bola, possuem tradições muito diferentes aqui, aí quando um brutamonte bêbado leva um fora delas, acontecem os estupros. Muitos soldados já foram enviados de volta para serem julgados por crimes desse tipo. E o exército vive tentando encobrir.

Dia 85 – 01/11/1967

Cacete, quanto mais próximos de Hué nós chegamos, mais emboscadas encontramos, a companhia foi atacada próximo de um pântano, umas 5 horas de caminhada depois de Qui Nhon na direção norte. Aqueles “caipiras” como diz o Jack estão treinando pra valer, derrubaram uns 20 soldados nossos antes de sumirem em seus malditos túneis. Os capitães ao verem que não tem salvação, puxam espadas e saem loucos no tiroteio, como os kamikazes japoneses na Segunda Guerra, cortaram a mão de um subtenente chamado Niles, ele é alto, pálido e tem o cabelo bem moreno, acho que deve ter vindo do Nebraska. Ele deve estar sonhando em voltar para o gelo que é aquele maldito estado, comparado ao inferno que é no meio dessa selva.


28 maio 2016

Sonhos de Guerra #02 (Ou: A FNL Contra-Ataca!)

Senhoras e senhores, moças e rapazes, bípedes em geral. Continua agora Sonhos de Guerra, a série que não é Game of Thrones mas que garanto que ainda vai ter muita morte e destruição.

Hoje com o bônus de uma trilha sonora para proporcionar uma melhor imersão, espero que apreciem.
Até terça que vem nesse mesmo canal (nesse mesmo banco).

Até!

Magno.



Dia 57 – 04/10/1967
Hoje enterramos os restos de alguns dos recrutas do 5th regimento, durante a patrulha fomos surpreendidos por um grupo de vietcongues... Meu deus, eles saíam do nada e de todos os lugares. Levei um tiro no braço e Rick sofreu alguns arranhões. Caramba, como isso dói, estou com o braço enfaixado até agora. O Sargento conseguiu organizar a tropa, mas mesmo assim dos 25, apenas 8 sobreviveram. A tática deles foi fenomenal, eu até elogiaria o capitão, se ele não tivesse tentado me matar. Os desgraçados estavam usando armas russas. Pelo visto essa guerra não está limitada apenas ao Vietnã...
Minha mãe sempre dizia que nem tudo o que reluz é ouro e que tinha algo de diferente nesse conflito, mas que ela não entendia. Queria que meu avô estivesse vivo para me dar uns toques antes de partir para cá. É uma pena mesmo.

Dia 60 - 07/10/1967
Hoje desembarcaram novas tropas e suprimentos, pelo visto o Presidente Johnson está empenhado em combater o avanço do exército do Vietnã do Norte, ou falando corretamente FNL (Frente Nacional de Libertação). Pelas notícias que correm por aqui em Saigon, os Russos não param de enviar suprimentos para Hué, principal base dos vietcongues. Graças ao incidente de quatro dias atrás o Sargento me promoveu a Cabo. Porém, diferente de o que eu esperava antes de vir para cá, não me orgulhei disso.
Eu não fui promovido por bravura ou honra, eu sequer fiz muita coisa além de disparar aleatoriamente. Não mereço essa promoção, não é exatamente isso o que eu queria.

Dia 62 – 09/10/1967
Amanhã vamos tentar recuperar os arredores de Dalat. O 5th Regimento vai receber apoio do 4th Regimento do 31st Batalhão de infantaria, os caras são lendas, alguns participaram da Segunda Guerra. Espero que dessa vez eu saia ileso, mas não estou contando muito com isso. Meu rifle deu umas travadas bem estranhas enquanto eu praticava hoje, estou com um mal pressentimento. O Rick me falou para deixar de bobeira, mas ainda tenho pesadelos com o pessoal que morreu semana passada.
O último foi ontem à noite, era como se eu fosse um espectador surdo, somente vendo um a um morrer entre as árvores em uma cena grotesca de algum filme mudo. Acordei suando, completamente arrepiado... Dizem que você nunca esquece a primeira vez que vê a morte de perto. Depois de toda aquela experiência, consigo confirmar esse ditado.
 

Dia 63 – 10/10/1967 [13:27]
Estou escrevendo isso estirado em um buraco com minha perna encravada de estilhaços.
Uma granada explodiu a uns 10 metros de mim, consegui me jogar para longe, mas minha perna esquerda trouxe lembrancinhas. Dave, o oficial médico está preparando pra remove-las. Até agora foi um inferno, tanto na temperatura como na situação. Os desgraçados aparecem de repente e onde menos se espera, juro que vi um deles sair do meio da lama atirando... Aquelas malditas armas russas funcionam até debaixo d’água. Meu rifle, como eu imaginei travou durante o combate, o que quase me resultou em engolir um tiro de espingarda. Mas consegui me esconder e sacar minha pistola. O Sargento Jack está puto, parece que o seu Sub-Oficial disse que seu plano era uma merda e que nunca ia dar certo. Aparentemente um morteiro explodiu o sub-oficial...

Dia 63 – 10/10/1967 [19:44]
Conseguimos avançar e recuperar uma boa parte do território e minha perna parou de sangrar, mas estou mancando muito, o que dificulta demais para avançar grandes distâncias. Me obriguei a pegar a arma de um deles. Foi quando percebi que a maioria nem sequer tem uniforme... Jesus, estamos lutando contra camponeses! Muitos deles mais novos que eu. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Isso sem contar o terror de andar por essas matas fechadas, sem saber onde diabos eles estão escondidos. Fico surpreso com suas táticas tão precisas, muitas vezes eles se escondem em tocas no chão ou nas copas das árvores, e sempre atacam em emboscadas, flanqueando nossas posições. O que garante a eles maiores chances, já que geralmente estão em desvantagem numérica. Confesso estar cada vez mais preocupado com os rumos disso tudo...

Dia 64 – 11/10/1967
Nos últimos dias tenho sentido fortes saudades de casa, de meus familiares e amigos, parece que nunca mais irei vê-los e somando isso a essa guerra eu chego a perder fôlego. Afinal de contas, qual o objetivo disso tudo mesmo?

Mandei uma carta para minha mãe contando a batalha dos últimos dias, a gente conseguiu se entender depois da briga que antecedeu minha partida, embora ela fale que sempre que sai uma lista com os soldados mortos o coração dela para. Não queria que ela tivesse que passar por algo assim, às vezes penso que fui egoísta por ter feito a escolha de vir para este inferno.
Mas como diz àquela música que o Bob lançou há alguns anos: “A resposta meu amigo está sendo soprada pelo vento”. E acredito que não há muitas maneiras de descobri-la.

Dia 66 – 13/10/1967
Partimos de Dalat e estamos agora em direção a BuônMêThuet (não tenho ideia de como pronuncio isso), próximo à divisa com o Camboja. Estou neste momento esticado sobre um tanque M-113, uma espécie de furgão da VW, porém ao invés de surfistas ela transporta soldados, e ao invés de pranchas e diversão, carrega armas e medo. As únicas semelhanças é que ambas são caixas quadradas de metal feitas para transportar muita gente, o que no nosso caso, não é o suficiente, pois estou aqui fora, desprotegido, o alvo perfeito em uma emboscada (ao menos aqui está mais fresco do que lá dentro). Vou parar de escrever, o Sargento já me encarou algumas vezes e eu não pretendo ser tratado como um cão sarnento agora.






24 maio 2016

Sonhos de Guerra #01 (Ou: No dia em que saí de casa)

Senhoras e senhores, moças e rapazes, humanos ou não. Hoje lhes trago o começo de Sonhos de Guerra, O diário de um jovem soldado que parte para o Vietnã e começa a enxergar a vida com outros olhos.

Espero que apreciem a leitura. A escrita demandou muita pesquisa. As cidades, batalhões do exército e alguns eventos ocorreram de verdade, porém, a história contada é fantasiosa e não corresponde com a realidade (será?).

Magno

Dia 1 -18/08/1967
Completei 22 anos semana passada, minha mãe não queria que eu me alistasse aos 20, mas agora que finalmente passei da idade mínima eu posso me alistar. Vou passar um mês em Camp Pendleton para treinamento, o que significa que terei de viajar cerca de 570 milhas de ônibus, mas serei treinado por Fuzileiros!!! Não sei bem o que me aguarda lá, mas estou ansioso, afinal de contas eles são feras no que fazem. Também tenho minhas dúvidas de como vai ser no Vietnã, mas estou ansioso para servir meu país assim como meu avô, que foi sargento da 7th Cavalaria e lutou na Revolta dos Boxers. Decidi anotar tudo o que vai acontecer de agora em diante para me manter em juízo perfeito, ouvi boatos de que alguns soldados de Healdsburg retornaram com quadros de depressão e psicopatia.

Dia 3 – 20/08/1967
A Viagem foi como imaginei: Longa e tediosa. A única vista “nova” foi Los Angeles... Que cidade incrível, com toda a sua imponência em meio a plantações de algodão e uva (embora tenha um dos vinhos mais gostosos e baratos que já provei), imigrantes mexicanos e atores desempregados. Quem sabe quando acabar essa guerra eu arranje uma garota e me mande para lá. Ocorreu até um pequeno protesto de um grupo de hippies contra o presidente Johnson em frente ao meu hotel. É difícil concordar com um bando de chapados, parece que não percebem que o Vietnã do Norte é uma ameaça ao nosso país, isso aparece na TV o tempo todo.

Dia 4 – 21/08/1967
Recebi as primeiras instruções de como funciona a base e tive meu cabelo raspado, como todos os outros recrutas... Por que isso? Senti como se minha individualidade tivesse ido pro saco... Como se fosse só mais um... Nunca senti algo assim, nem mesmo no colégio quando era obrigado a usar aquela porcaria de uniforme. De qualquer maneira eram ordens e eu tinha que obedecer, vou fazer o que for preciso.

Dia 13 – 30/08/1967
É incrivelmente difícil escrever aqui em Camp Pendleton, quando terminar eu vou escrever um resumo...

Dia 34 – 20/09/1967
Cada segundo desse treinamento maldito valeu a pena, fui aprovado e daqui quatro dias embarco para a base de Saigon. Foram dias difíceis se arrastando na lama, levando cuspidas de oficiais superiores e disputando comida com cachorros. Indo dormir as duas para acordar ás cinco da manhã. Inúmeros treinos de tiro (não imaginava que o coice de uma metralhadora era tão forte... Quase deslocou meu ombro! Preciso descobrir uma maneira de firmar a arma sem perder a mobilidade). Os alojamentos eram simples e não tive muitos problemas com outros recrutas, só alguns brutamontes que curtiam tirar sarro com os mais novos, todo mundo era obrigado a permanecer em ordem, qualquer brincadeira pega por um oficial e poderíamos até ser presos por descumprir ordens. Pelo menos acabou e agora tenho uns dias de descanso antes de ir para Saigon.

Dia 35 – 21/09/1967
Despedi-me de meus familiares hoje, a maioria não está contente com a ideia de que eu vá para a guerra, acho que eles não enxergam a honra que eu estou recebendo, vou poder defender meu país contra esses terroristas. Briguei com minha mãe ontem por conta disso, eu não queria ir embora assim, mas preciso que ela aceite. Estou cada vez mais ansioso, sinto a adrenalina queimando em meu corpo, parece que vou sair voando com toda essa energia. Mas confesso sentirei muita falta de meus amigos, eles também tentaram me fazer desistir disso, mas sabem que quando quero algo eu vou até o fim. Também vou sentir falta dos meus pertences, minhas revistas, meus discos. Mas agora não tem mais volta, pelo menos não até acabar a guerra... ou o pior acontecer...


Dia 37 – 23/09/1967 
Um veículo do exército veio me buscar, vamos num voo militar saindo de San Francisco, ele vai fazer escala no Hawaii para reabastecer e ai segue direto para o Vietnã. Minha mãe não se despediu, no momento que entrei no carro consegui ve-lâ na janela do meu quarto... Parecia estar chorando. Acho que nunca vou me esquecer da imagem dela lá...

Dia 37 – 23/09/1967 - 20:30
Que Porcaria de voo demorado! Confesso que gosto de voar, mas estou muito ansioso, eu quero ir logo para a batalha! A cada momento que passa sinto-me mais e mais disposto a enfrentar... A enfrentar... Agora parei para pensar, o que estamos enfrentando mesmo? O Presidente e os líderes do exército dizem que temos que conter o avanço comunista no Vietnã, mas o que nós temos a ver com aquele país de nada? De toda

Dia 39 – 25/09/1967
Cheguei hoje pela manhã na base de Saigon, no momento em que cheguei já notei bruscas diferenças. Pra começar a temperatura aqui é absurdamente elevada, estava marcando quase 90 Fahrenheit as 10:00 da manhã!! (Cerca de 32 graus celsius - NdA) Eu fui para o alojamento e recebi meu uniforme. No avião conheci Rick Fontera, um cara de St. Helena que passou por uma situação semelhante a minha para conseguir se alistar, estamos ficando um perto do outro pra caso ocorra alguma coisa a gente tenha em quem confiar. A única coisa familiar que vi por aqui (além das velhas expressões sérias dos militares) foi que pela manhã, todos param para escutar um programa na rádio. 

Dia 49 – 26/09/1967
É no mínimo curioso ver a base aérea de Tan Son Nhut AB, principal base americana que fica próxima a Saigon, se eu não soubesse que eu estou no meio de uma guerra, diria que isso é uma colônia de férias, com diversos soldados em barracas fazendo churrasco e escutando Creedence em seus radinhos. Um tenente, após reconhecer meu sobrenome por causa do meu avô (já falei que o velho realmente fez história) me ofereceu um quarto fechado, com cama, bebidas, e se precisasse até prostitutas ele arrumava. Além de álcool, cigarros e outras drogas por cerca de US$400,00. O que me deixou confuso: Afinal, onde ele pensa que nós estamos? Quem ele pensa que é para agir como um gigolô no meio desse inferno? Não aceitei, agora durmo no chão de uma simples e fria barraca perto da pista de pouso. Vendo isso confesso que cogitei a ideia de voltar lá...

Dia 53 – 30/09/1967
Nos últimos dias passei por incessantes treinamentos físicos e táticos, recebi junto de alguns informes da cultura local uma pistola Colt 1911.45 e um fuzil Colt M16 5.56mm. O Sargento Jack me elogiou, apesar de ele tratar todos os soldados como cachorros. Amanhã vamos para Dalat patrulhar as redondezas. Eu e Rick estamos no 5th Regimento de Fuzileiros, um dos destacamentos que mais participa dos combates. Logo saberei se isso é bom ou ruim. 

Dia 55 – 02/10/1967

Não possuo a capacidade física nem mental de escrever algo hoje. O que tinha de merda para acontecer, aconteceu. Vou beber com os que sobraram...


20 maio 2016

Sonhos de Guerra + Apresentação (Ou: Corra que o Magno Vem Aí)

Olá, Meu nome é Magno, sou o novo (escravo) contribuinte do EAE. Diferente do Sr.M, não vou assinar assim, por que senão ficará parecendo somos uma versão dos Bananas de Pijamas. Também não vou trazer poemas ou poesias, pois não tenho nem 1/3 do talento do meu colega para isso, tão pouco a facilidade de brincar com as palavras.

Então o que afinal estou fazendo aqui? (além das piadinhas fracas) 

Meu forte, senhoras e senhores, damas e cavalheiros, moças e rapazes, são crônicas, contos e novelas.
Isso mesmo, teremos mais histórias divididas em várias partes, das quais espero que vocês não enjoem de ler. Além dessas, crônicas e contos com uma frequência um pouco maior, e em breve uma segunda série será iniciada, mas isso é assunto para outra hora. Por equanto aproveito esse espaço para lhes trazer a Introdução da primeira delas, que será postada toda terça e sexta-feira. Lhes apresento: 

Sonhos de Guerra

    Guerra! Sangue! Morte... Acredito que dificilmente alguém almeje de verdade ser um soldado, tampouco estar em uma guerra, longe da família, se arriscando por seu país, nação, costume, religião... Ou talvez sim, a História está aí para mostrar quantas pessoas realmente queriam lutar, defender aquilo que é delas, ou o que defendem. Mostrando que vale a pena batalhar por seus ideais, sejam bons ou ruins.
    Mas, e se, além disso, você estivesse lutando por algo que não sabe o que é, mas que acredita fielmente. Contra pessoas que você acredita ser algo que não são. E perdendo pessoas que você esperava que estivessem ali para sempre. Como ficaria sua cabeça? Como você se comportaria? Em quais valores você ainda acreditaria? Será que você voltaria inteiro para casa?
      É preciso de uma quantia muito grande de azar para acabar numa guerra, e uma muito maior de sorte para conseguir sair dela...

A não ser, que você queira estar lá...



Magno.