28 maio 2016

Sonhos de Guerra #02 (Ou: A FNL Contra-Ataca!)

Senhoras e senhores, moças e rapazes, bípedes em geral. Continua agora Sonhos de Guerra, a série que não é Game of Thrones mas que garanto que ainda vai ter muita morte e destruição.

Hoje com o bônus de uma trilha sonora para proporcionar uma melhor imersão, espero que apreciem.
Até terça que vem nesse mesmo canal (nesse mesmo banco).

Até!

Magno.



Dia 57 – 04/10/1967
Hoje enterramos os restos de alguns dos recrutas do 5th regimento, durante a patrulha fomos surpreendidos por um grupo de vietcongues... Meu deus, eles saíam do nada e de todos os lugares. Levei um tiro no braço e Rick sofreu alguns arranhões. Caramba, como isso dói, estou com o braço enfaixado até agora. O Sargento conseguiu organizar a tropa, mas mesmo assim dos 25, apenas 8 sobreviveram. A tática deles foi fenomenal, eu até elogiaria o capitão, se ele não tivesse tentado me matar. Os desgraçados estavam usando armas russas. Pelo visto essa guerra não está limitada apenas ao Vietnã...
Minha mãe sempre dizia que nem tudo o que reluz é ouro e que tinha algo de diferente nesse conflito, mas que ela não entendia. Queria que meu avô estivesse vivo para me dar uns toques antes de partir para cá. É uma pena mesmo.

Dia 60 - 07/10/1967
Hoje desembarcaram novas tropas e suprimentos, pelo visto o Presidente Johnson está empenhado em combater o avanço do exército do Vietnã do Norte, ou falando corretamente FNL (Frente Nacional de Libertação). Pelas notícias que correm por aqui em Saigon, os Russos não param de enviar suprimentos para Hué, principal base dos vietcongues. Graças ao incidente de quatro dias atrás o Sargento me promoveu a Cabo. Porém, diferente de o que eu esperava antes de vir para cá, não me orgulhei disso.
Eu não fui promovido por bravura ou honra, eu sequer fiz muita coisa além de disparar aleatoriamente. Não mereço essa promoção, não é exatamente isso o que eu queria.

Dia 62 – 09/10/1967
Amanhã vamos tentar recuperar os arredores de Dalat. O 5th Regimento vai receber apoio do 4th Regimento do 31st Batalhão de infantaria, os caras são lendas, alguns participaram da Segunda Guerra. Espero que dessa vez eu saia ileso, mas não estou contando muito com isso. Meu rifle deu umas travadas bem estranhas enquanto eu praticava hoje, estou com um mal pressentimento. O Rick me falou para deixar de bobeira, mas ainda tenho pesadelos com o pessoal que morreu semana passada.
O último foi ontem à noite, era como se eu fosse um espectador surdo, somente vendo um a um morrer entre as árvores em uma cena grotesca de algum filme mudo. Acordei suando, completamente arrepiado... Dizem que você nunca esquece a primeira vez que vê a morte de perto. Depois de toda aquela experiência, consigo confirmar esse ditado.
 

Dia 63 – 10/10/1967 [13:27]
Estou escrevendo isso estirado em um buraco com minha perna encravada de estilhaços.
Uma granada explodiu a uns 10 metros de mim, consegui me jogar para longe, mas minha perna esquerda trouxe lembrancinhas. Dave, o oficial médico está preparando pra remove-las. Até agora foi um inferno, tanto na temperatura como na situação. Os desgraçados aparecem de repente e onde menos se espera, juro que vi um deles sair do meio da lama atirando... Aquelas malditas armas russas funcionam até debaixo d’água. Meu rifle, como eu imaginei travou durante o combate, o que quase me resultou em engolir um tiro de espingarda. Mas consegui me esconder e sacar minha pistola. O Sargento Jack está puto, parece que o seu Sub-Oficial disse que seu plano era uma merda e que nunca ia dar certo. Aparentemente um morteiro explodiu o sub-oficial...

Dia 63 – 10/10/1967 [19:44]
Conseguimos avançar e recuperar uma boa parte do território e minha perna parou de sangrar, mas estou mancando muito, o que dificulta demais para avançar grandes distâncias. Me obriguei a pegar a arma de um deles. Foi quando percebi que a maioria nem sequer tem uniforme... Jesus, estamos lutando contra camponeses! Muitos deles mais novos que eu. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Isso sem contar o terror de andar por essas matas fechadas, sem saber onde diabos eles estão escondidos. Fico surpreso com suas táticas tão precisas, muitas vezes eles se escondem em tocas no chão ou nas copas das árvores, e sempre atacam em emboscadas, flanqueando nossas posições. O que garante a eles maiores chances, já que geralmente estão em desvantagem numérica. Confesso estar cada vez mais preocupado com os rumos disso tudo...

Dia 64 – 11/10/1967
Nos últimos dias tenho sentido fortes saudades de casa, de meus familiares e amigos, parece que nunca mais irei vê-los e somando isso a essa guerra eu chego a perder fôlego. Afinal de contas, qual o objetivo disso tudo mesmo?

Mandei uma carta para minha mãe contando a batalha dos últimos dias, a gente conseguiu se entender depois da briga que antecedeu minha partida, embora ela fale que sempre que sai uma lista com os soldados mortos o coração dela para. Não queria que ela tivesse que passar por algo assim, às vezes penso que fui egoísta por ter feito a escolha de vir para este inferno.
Mas como diz àquela música que o Bob lançou há alguns anos: “A resposta meu amigo está sendo soprada pelo vento”. E acredito que não há muitas maneiras de descobri-la.

Dia 66 – 13/10/1967
Partimos de Dalat e estamos agora em direção a BuônMêThuet (não tenho ideia de como pronuncio isso), próximo à divisa com o Camboja. Estou neste momento esticado sobre um tanque M-113, uma espécie de furgão da VW, porém ao invés de surfistas ela transporta soldados, e ao invés de pranchas e diversão, carrega armas e medo. As únicas semelhanças é que ambas são caixas quadradas de metal feitas para transportar muita gente, o que no nosso caso, não é o suficiente, pois estou aqui fora, desprotegido, o alvo perfeito em uma emboscada (ao menos aqui está mais fresco do que lá dentro). Vou parar de escrever, o Sargento já me encarou algumas vezes e eu não pretendo ser tratado como um cão sarnento agora.