21 dezembro 2015

Crônica - Amor Moderno (Parte I)

Eu estava lá, esperando. Sempre estive lá. Na saída da empresa onde ela trabalhava, o combinado era esse: no fim do expediente voltávamos juntos do trabalho, parando em uma barraquinha para comprar churros.
Não sei o que deu em mim, nesse dia queria que fosse tudo diferente. Infelizmente nem todas as pessoas reagem bem a surpresas.
Ela chegou. Estava deslumbrante, aquela camisa azul, os cabelos escuros presos em um coque e os óculos. Tão séria, até ver-me esperando do lado de fora, então abriu um sorriso e apressou-se para sair do prédio.
- Como vai? - Ela perguntou primeiro, eu preferia deixar que ela o fizesse.
- Melhor agora que saí do trabalho, e você?
- Também, estou morta de fome então podemos ir logo? - Ela exibia o sorriso como se fosse um troféu.
- E pretende comer a sobremesa antes da janta? - Perguntei, achando graça.
- Churros comprado em uma esquina não pode ser considerado sobremesa.
Caminhamos até a barraquinha e compramos dois churros, depois sentamos em um banco na pequena praça próxima ao complexo de vielas. Gostávamos daquilo, sentar e ver grupos de pessoas passando, alguns atletas, algumas famílias. Chegara a hora de falar:
- Paula, eu preciso dizer algo.
Ela encarou-me, tentando decifrar o teor das frases que viriam em seguida. Pelo visto não obteve sucesso. Então decidi prosseguir:
- Já nos conhecemos há um bom tempo e nunca fomos plenamente amigos, sempre houve uma certa tensão entre nós. Eu pensei bastante a respeito e gostaria de tentar...
- Pensou bastante?
Mulheres, sempre fazem a pergunta errada na hora certa.
- Sim. Bem, não foi fácil decidir simplesmente falar isso para você.
- Mas e se não dermos certo? E se eu não for quem você pensa que sou?
Ah, péssima hora para enrolar. Se soubesse quanto tempo passei pensando a respeito.
- Se algum dia eu sentir arrependimento, prefiro que seja por ter tentado - Foi a melhor resposta que eu pude pensar na hora.
- Alexandre, eu... Eu preciso pensar sobre isso - Ela levantou-se, arrumando a saia social preta.
- Entendo que precise pensar e repensar, mas como ficamos? - Eu estava desesperado.
- Quando tiver uma resposta, eu telefono.
E ela foi, a última expressão que vi em seu rosto naquela noite fora seriedade, surpresa, medo.
Ela não telefonou naquela semana.